Vovó Lu

Sobre lavanda e pasta de dente…

Minha avó cheirava a lavanda. Lavanda e pasta de dente. O primeiro porque era a colônia que usava depois do banho, o segundo porque talvez seja a única pessoa que sempre seguiu à risca a recomendação do dentista.

Até se tomasse um cafezinho no meio da tarde, lá ia ela para o ritual em frente do espelho. Lembro de assistir quase anestesiada aquele momento, fazia com tanto cuidado e sempre repetia ao final: “tem que escovar os dentes sempre.”

Ela tinha, além do sorriso de dentes muito brancos, a gargalhada que produzia o som mais gostoso de todo o universo.

Leu pra mim a coleção completa do Monteiro Lobato (on and on and on). As palavras derretiam em sua boca, e eu ficava ali respirando ela, com aquela sensação de imortalidade que só colo de vó é capaz de transmitir.

Não era boa no fogão por ter absoluto pavor de cozinhar, fazia o trivial quando obrigada e tinha uma cozinheira maravilhosa. Foi na casa dela que agarrei paixão por carne moída, arroz, feijão e batatinha. À mesa sempre um potinho de madeira com farinha de mandioca torrada e um molhinho de salada com cebola crua, azeite, adoçante e vinagre.

Mas, das mãos dela, saia a melhor salada de frutas que já comi. As frutas picadas bem pequenininhas, numa precisão quase cirúrgica… mamão papaia, maça, pera, banana e abacaxi, o suco era de laranja lima. O feitiço eu não sei, só sei que era deliciosa.

E o pudim de pão, capitulo a parte na minha memória afetiva. Lisinho como pudim de leite, raspinhas de limão e canela em pó. Na hora de montar o cardápio do primeiro restaurante, lá fui eu pedir a ela autorização para usar sua receita.

Como já previa, foi um sucesso! E me garantiu ainda umas 500 ligações:

“Vó, me passa a receita do pudim?”

“Mas menina, de novo? Eu já não te dei essa receita? Tome nota então… um pãozinho de sal, amanhecido, não pode estar fresco…”

E eu, já sabendo os ingredientes e quantidades de cor, desenhava um papel enquanto ela repetia tudo de novo.

Eu só ligava mesmo pra ouvir sua voz e maneira como entonava as palavras. Sempre houve ali algo magico capaz de me transportar praquele colo quentinho cheirando a lavanda e pasta de dente.